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Celebração do Festival das Flores na China - Você Conhece?

Na vasta história cultural chinesa, poucas celebrações capturam a interseção entre a beleza efêmera da natureza e a profundidade da experiência feminina como o Huazhao Jie (花朝节), ou o "Festival da Manhã das Flores".


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Celebrado tradicionalmente no segundo mês lunar — quando o inverno começa a ceder seu lugar aos primeiros ventos mornos da primavera —, este festival não é apenas um marco agrário; é uma reverência à vida, ao renascimento e, acima de tudo, às doze figuras lendárias que guardam a alma de cada floração.


Para entender o Huazhao Jie, precisamos transportar nossa imaginação para as eras de ouro da China Imperial. Embora suas raízes remontem ao Período das Primaveras e Outonos, foi durante a cosmopolita Dinastia Tang (618–907) e a refinada Dinastia Song (960–1279) que a celebração atingiu seu apogeu.


Diferente de festas voltadas para a colheita ou para os ancestrais, o Festival das Flores possuía uma aura de delicadeza aristocrática que, com o tempo, transbordou os muros dos palácios e coloriu a vida do povo comum. Era o "aniversário de todas as flores", um dia em que a terra parecia prender a respiração para admirar sua própria beleza.



O coração pulsante deste festival reside na mitologia das Doze Deusas das Flores. A tradição literária chinesa, sempre inclinada a humanizar a natureza, atribuiu a cada mês lunar uma flor regente e, a cada flor, uma divindade feminina patrona.


O aspecto mais fascinante — e talvez o mais tocante para quem escreve sobre a alma humana — é que essas deusas raramente eram divindades distantes ou intocáveis. Em sua maioria, eram mulheres históricas ou lendárias que viveram na Terra, figuras marcadas por uma beleza avassaladora, talentos excepcionais ou destinos trágicos. A cultura chinesa antiga compreendia que a flor, em sua perfeição breve e frágil, era a metáfora perfeita para a vida dessas mulheres.


Ao caminhar pelos meses, encontramos histórias que oscilam entre o romance e o sacrifício. O ano começa com a Flor de Ameixeira, cuja patrona é frequentemente associada à Princesa Shouyang ou à desafortunada, porém resiliente, poetisa Wan Zhaojun. A ameixeira, florescendo em meio à neve, simboliza a nobreza de espírito que resiste às adversidades.


Seguindo para o segundo mês, encontramos a Flor de Damasco, guardada pela lendária Yang Guifei, uma das Quatro Grandes Belezas da China. Sua história de amor com o Imperador Xuanzong, que culminou em sua morte trágica para salvar o império, reflete a beleza voluptuosa e a tristeza inerente ao fim da primavera.


A narrativa das flores continua com a Peônia, a rainha das flores, adorada em abril e associada à incomparável Li Juan ou à célebre poetisa Li Qingzhao. A peônia representa a honra, a riqueza e a elegância suprema, espelhando mulheres que brilharam nas cortes imperiais.


Já o verão traz o Lótus, a flor imaculada que emerge da lama, personificada pela bela Xi Shi. Diz a lenda que Xi Shi, uma lavadeira de seda, usou sua beleza para derrubar um reino rival por amor à sua pátria, mantendo sua pureza interior intacta, tal qual a flor que representa. Cada mês subsequente — o Crisântemo do outono, a Camélia do inverno, o Narciso das águas — carrega consigo o espírito de uma mulher que, de alguma forma, transcendeu sua mortalidade através da memória e da associação com a natureza.



Rituais


No auge da celebração, as cidades antigas se transformavam. Uma das tradições visualmente mais deslumbrantes era o ritual do "Shanghong" (赏红), ou "Admirar o Vermelho". Imagine a cena: ao amanhecer, mulheres de todas as idades saíam aos jardins carregando tiras de seda vermelha ou papel colorido. Com cuidado reverente, elas amarravam essas fitas nos caules das flores e nos galhos dos arbustos. Não era apenas um adorno; era um gesto de proteção, um amuleto visual para resguardar as pétalas delicadas contra os ventos e chuvas da primavera, e, simbolicamente, um desejo de que a própria beleza e juventude das mulheres fossem preservadas.


Ver um jardim inteiro pontilhado de laços vermelhos tremulando ao vento era ver a união entre a esperança humana e a vontade da natureza.


Além dos rituais, o Huazhao Jie era um dos raros momentos de liberdade social para as mulheres das classes altas, que viviam reclusas em seus aposentos. O costume do "Taqing", ou "Pisar no Verde", permitia que elas saíssem para passeios ao ar livre, piqueniques e encontros poéticos. Era um dia de suspiros, de olhares trocados e de inspiração artística. As damas competiam em concursos de arranjos florais, recitavam poemas em homenagem às deusas e buscavam, na natureza, respostas para seus anseios mais íntimos.



Costumes culiários do Festival das Flores na China


E como não se pode falar de cultura chinesa sem mencionar a gastronomia, o festival era também uma experiência sensorial para o paladar. Acreditava-se que ingerir flores era uma forma de absorver sua essência e beleza.


Cozinhas perfumadas preparavam o "Hua Gao" (Bolo de Flores), feito com farinha de arroz glutinoso e pétalas frescas da estação, adoçado com mel. O vinho não ficava de fora: o néctar das flores era fermentado para criar bebidas suaves, como o vinho de flor de pessegueiro, que prometia não apenas embriagar os sentidos, mas também rejuvenescer a pele e o espírito.


Havia até o "Mingau das Cem Flores", um prato delicado onde pétalas comestíveis eram cozidas lentamente, criando uma refeição que parecia conter a própria primavera em uma tigela.


Com o passar dos séculos e as mudanças dinásticas, o Huazhao Jie perdeu parte de sua grandiosidade oficial, tornando-se uma memória nostálgica em muitas regiões, embora esteja sendo vivamente resgatado hoje pelos entusiastas do Hanfu (traje tradicional chinês).


Contudo, a essência do festival permanece imortal na literatura e no imaginário coletivo. Ele nos lembra de uma época em que o tempo era medido não por relógios, mas pelo desabrochar de um botão de rosa ou pela queda de uma flor de ameixeira.


Para nós, amantes da história e da literatura chinesa, o Festival das Deusas das Flores é mais do que uma data no calendário lunar. É um convite para olhar o mundo com mais delicadeza. É um lembrete de que, por trás de cada flor que nasce, existe uma história de resistência, uma lenda de amor ou um poema silencioso esperando para ser lido. Que possamos, mesmo na modernidade, amarrar nossas próprias fitas vermelhas imaginárias nas belezas que queremos proteger, celebrando a primavera que floresce dentro e fora de nós.



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