Contra a Corrente - Resenha

Pensei duas vezes antes de começar Contra a Corrente. São 47 episódios e fazia muito tempo que eu não assistia a algo tão longo. O início, no entanto, foi uma grata surpresa — apesar do sofrimento intenso dos dois primeiros episódios, em que a protagonista vai da riqueza à pobreza.
Ambientada na China imperial (em um período que se percebe mais recente pelo estilo das vestimentas), a direção de arte chama atenção. Os homens parecem um pouco desalinhados, com o cinto mais baixo na cintura, o que dá uma aparência quase desleixada. Já as mulheres vestem trajes bonitos e mais soltos no corpo, como batas longas — embora não tão pomposas quanto as de dinastias anteriores.
Sinopse: A jornada de superação de Shen Jialan
A história vai nos guiar pela superação de uma mocinha, única sobrevivente de toda a família Shen, que teve seu sonho de se casar na família Lin destruído por conspirações contra seu pai na corte, o que levou ao massacre de toda a sua família.
Mas Shen Jialan (Tan Song Yun) sobrevive com a ajuda de um casal que acaba de perder a filha doente. Em meio à dor, eles a acolhem no lugar da filha falecida para que ela possa viver. Jialan vai, então, assumir o nome da filha desse casal, Lanxiang, e viver com eles como serva — ironicamente, da família Lin.
Mas Lin Jinqi (Liu Xue Yi) e Shen Jialan nunca se viram quando estavam prometidos um ao outro em casamento, e o noivado foi desfeito sem que eles se conhecessem. Por esse motivo, Jinqi não reconhece Lanxiang, mas ela sabe exatamente quem ele é.
Ao contrário dos clichês, ela não busca vingança contra a família Lin, pois eles não têm nada a ver com a morte da família dela. Resta apenas um ressentimento pelo noivado desfeito justamente no momento em que sua família foi massacrada.
A primeira fase: Da servidão à conquista da liberdade
Lanxiang vive uma vida dura como serva da família Lin na primeira fase do drama. Pena nas mãos da sórdida primeira esposa de Jinqi, mas vai ganhando a confiança de seus senhores e conquistando méritos diante da família. Seu propósito é alcançar a liberdade para ela e para seus pais adotivos.
Jinqi é um homem de bom caráter e de bom coração. Diante da inteligência e perspicácia de Lanxiang, ele começa a observá-la: primeiro por compaixão, depois por admiração e, por fim, por amor, sem sequer supor que ela seja a noiva do seu casamento desfeito — que ele pensa estar morta.
Na segunda fase, é muito gratificante observar como ele vai se interessando por ela, pelos olhares às escondidas e pelo cuidado que ele dispensa a ela, diferente de como trata outras servas. Quando Lanxiang finalmente alcança a liberdade, ele é o primeiro a apoiá-la. Ela finalmente pode ter uma vida digna e livre junto de seus pais. Mas essa paz só dura até a página dois e logo aparece mais encrenca.
Uma nova rival surge sem ninguém esperar, e ela, que não está nem aí para Lin Jinqi, custa a entender por que é perseguida. Todo mundo notou o interesse dele por ela, mas ela só pensa em viver bem com sua família.
Mudanças bruscas e furos no roteiro
Quando finalmente chega o casamento dela com Jinqi, sim, você não se perdeu na resenha, é isso mesmo! Esse casamento veio assim, do nada, não só para nós leitores, mas para ela também. A reação dela foi a mais inesperada possível. E aqui está um dos pontos onde parece que a história deixou algo pelo caminho.
A trama vinha transcorrendo normalmente em um ritmo bem encadeado de passagens de tempo e evolução, mas, em alguns pontos, simplesmente insere acontecimentos que parecem ter vindo do vácuo. Como a filha de um marquês que chega na história já querendo a todo custo casar com Jinqi e, por uns três episódios, atormenta a vida de Lanxiang, só para no fim ser a maior prejudicada. E, assim como ela apareceu, ela se foi.
Outro ponto é o casamento entre Jinqi e Lanxiang. Jinqi, ciente de que a família dele jamais aceitaria uma ex-serva como nora, bola uma artimanha: ao ganhar méritos diante do novo imperador, pede que este lhe conceda Lanxiang em casamento.
Assim, a família dele não pode recusar e é obrigada a aceitar sem reclamar, pois qualquer discordância seria uma afronta direta a uma ordem imperial. Ótimo, porém Lanxiang não sabe nada sobre isso, não sabe que Jinqi tem sentimentos por ela e não desconfia de nada.
Realmente ficou meio confuso, pois, após ela deixar a servidão na família Lin, eles praticamente não se viram mais, não conversaram, não tiveram uma aproximação maior, e isso deixou essa parte do drama parecendo que faltou alguma coisa.
A mudança inexplicável de comportamento da protagonista
O mais surpreendente foi o casamento: lindo e com todos os ritos cumpridos, mas as atitudes dela surpreenderam bastante. Parecia outra personagem. A Lanxiang que vínhamos assistindo, cheia de resiliência, ponderada, nunca buscando vingança e sempre cordial e gentil, de repente tem atitudes que saem completamente do que se esperava dela. No casamento, ela reluta em curvar-se para o noivo e depois o esbofeteia na frente de todos os amigos dele. Realmente fiquei surpresa e me perguntei: “por que ela está agindo assim?”.
No dia seguinte ao casamento, quando os noivos devem visitar os mais velhos logo cedo de manhã, ela se recusa a usar sua melhor roupa e, diante dos mais velhos da família, simplesmente se recusa a dizer qualquer palavra, deixando o momento totalmente constrangedor para todos.
Aí você se pergunta: onde foi parar aquela Lanxiang gentil e educada? Pelo andar da trama, ela não tinha motivos para agir assim, desrespeitando os mais velhos. Todos ali nunca fizeram mal a ela e aceitaram numa boa conceder a ela e à sua família a liberdade.
Ela poderia ficar brava com Jinqi por não ter conversado com ela antes, por não ter explicado suas intenções e sentimentos, mas isso não justifica sua atitude diante do restante da família. Sim, a família não queria uma ex-serva como nora, mas estavam ali engolindo seus orgulhos e sendo educados com ela o tempo todo.
Desenvolvimento do casal e trilha sonora
A história toda corre sem grandes reviravoltas, e as fases são bem encadeadas, havendo apenas alguns pontos que ficaram meio sem nexo como esses. Mas o relacionamento dos dois vai sendo construído um passo após o outro. E é de se admirar a paciência e a persistência dele em relação a ela.
Os personagens ao redor também dão um show com histórias vivas e marcantes. A trilha sonora traz letras que nos remetem às trajetórias dos personagens, apesar de não ter nenhum grande destaque daquelas trilhas inesquecíveis que não saem da nossa cabeça e fazem a gente viajar na cena. Ainda assim, está condizente com o ritmo da trama.
Vale a pena assistir a Contra a Corrente?
Para uma série de 47 episódios, ter alguns capítulos que não agradam muito é perfeitamente aceitável. Podemos nos deliciar enquanto assistimos a esse casal se desenvolvendo, ganhando confiança e cumplicidade sem grandes arroubos e separações irritantes.
Se você não se importa com a quantidade de episódios e gosta de histórias de amor em que o casal vai construindo seu relacionamento aos poucos, Contra a Corrente é uma boa opção para assistir — principalmente após um período acompanhando dramas mais intensos, para descansar a mente sem ter que focar demais.
Da mesma diretora Huang Ying Xiang (de As Belas), o drama Contra a Corrente (Against the Current) foi lançado em 11 de setembro de 2026 e está disponível nos catálogos do WeTV e do Viki, além de diversos fansubs. Para quem quiser experimentar, os dois primeiros episódios também podem ser assistidos gratuitamente no canal oficial do WeTV no YouTube, com opções dublada e legendada.




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